Saboreando



Eu não era lá muito adepto do mundo virtual e nunca havia pensado em ter um blog, mas aqui está. Sou repórter e redator, trabalhei muito com cinema na imprensa, moro em São Paulo e adoro essa cidade. A vida urbana me atrai muito (sorte minha) e faço parte desse caos todo aqui, mas até que sou bem tranqüilo (já fui menos). Acredito que todo dia tem que ter pelo menos um momento, por menor que seja, especial. Pra isso, é necessário saber enxergá-lo no meio da correria de sempre.



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- Camila Bianchi - Divagando
- Olivia de Perto (com sua bela voz)
- Daniele em Londres - vida nova (e mais que interessante) no Velho Mundo







Leve erotismo

 

 

 

 

 

 

A tarde começava, azul e ensolarada, naquele bonito parque em pleno centro da grande cidade. Os raios do sol gostosamente filtrados pela copa das árvores mais que centenárias, naquele canto da urbe em que ainda era possível sentir cheiro de mato.

Recebendo os raios finos que desciam por entre as folhas, estava a estátua, uma mulher desnuda, branca em seu mármore de milhões de anos, mas que tomou forma feminina há menos de cem e foi habitar na pequeníssima mata urbana. Saiu da natureza em rocha disforme, e voltou a ela em forma de mulher.

Voejava ali por perto uma pequena borboleta, amarela, laranja, vermelha e preta. Não era obra de um escultor, como a moça de pedra, mas de um artista tão criativo que criou até mesmo os artistas. Uma obra prima alada e viva.

A pequena borboleta foi descendo pelos delgados raios de sol que refletiam em seu colorido. Por um tempo pareceu parada em pleno ar, mas retomou a descida, até o ombro esquerdo da estátua. Quem passasse por ali de repente àquela hora poderia pensar que ambas, embora de materiais diferentes, eram uma só obra de arte.

A borboletinha saiu de seu descanso imóvel de poucos segundos, e começou a andar pelo ombro em que pousara. As asas abriam e fechavam bem devagar durante a lenta caminhada. Desceu lentamente pelo ombro, chegou ao colo... parou por um instante.

Retomou a descida, ainda somente andando. Chegou ao mamilo do seio  esquerdo, desnudo, da escultura. Como descera, estava de cabeça para baixo. Sem sair de onde estava, começou a se virar para ficar de cabeça para cima, girando 180 graus. Embora parada, mexia as patinhas suavemente o tempo todo, acariciando a superfície branca e lisa do mármore com suas delicadas patinhas.

Se viva a estátua fosse, naquele exato momento não se mexeria, mas não por ser estátua... Não se moveria para desfrutar, olhos fechados, a sensação dos delicadíssimos toques da borboleta que escolhera lugar tão interessante para seu pouso. Se viva fosse, naquele exato momento morderia o lábio inferior, até não agüentar e deixar sair com alívio um sussurro, qual um gemido de prazer. Prazer gerado por aqueles pequenos toques que, de tão suaves, quase não chegavam a ser mesmo toques.

Se viva a estátua fosse... como desejou naquele momento o jovem sentado no banco de madeira próximo dali, deslumbrado com a cena que o dia bonito lhe dera de presente. Ele entenderia muito bem o lábio entre os dentes, o sussurro da moça de pedra, cujo mármore perdeu a frieza ao toque suave das patas de uma borboleta.



-Saboreado por: mc às 01h43
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