Saboreando



Eu não era lá muito adepto do mundo virtual e nunca havia pensado em ter um blog, mas aqui está. Sou repórter e redator, trabalhei muito com cinema na imprensa, moro em São Paulo e adoro essa cidade. A vida urbana me atrai muito (sorte minha) e faço parte desse caos todo aqui, mas até que sou bem tranqüilo (já fui menos). Acredito que todo dia tem que ter pelo menos um momento, por menor que seja, especial. Pra isso, é necessário saber enxergá-lo no meio da correria de sempre.



- 01/11/2008 a 30/11/2008
- 01/10/2008 a 31/10/2008
- 01/08/2008 a 31/08/2008
- 01/07/2008 a 31/07/2008
- 01/04/2008 a 30/04/2008
- 01/03/2008 a 31/03/2008
- 01/02/2008 a 29/02/2008
- 01/01/2008 a 31/01/2008
- 01/09/2007 a 30/09/2007
- 01/04/2007 a 30/04/2007
- 01/03/2007 a 31/03/2007
- 01/02/2007 a 28/02/2007
- 01/01/2007 a 31/01/2007
- 01/12/2006 a 31/12/2006
- 01/11/2006 a 30/11/2006
- 01/10/2006 a 31/10/2006
- 01/09/2006 a 30/09/2006
- 01/08/2006 a 31/08/2006
- 01/07/2006 a 31/07/2006
- 01/06/2006 a 30/06/2006
- 01/05/2006 a 31/05/2006
- 01/04/2006 a 30/04/2006
- 01/03/2006 a 31/03/2006
- 01/02/2006 a 28/02/2006
- 01/01/2006 a 31/01/2006
- 01/12/2005 a 31/12/2005
- 01/11/2005 a 30/11/2005
- 01/10/2005 a 31/10/2005
- 01/09/2005 a 30/09/2005
- 01/08/2005 a 31/08/2005
- 01/07/2005 a 31/07/2005
- 01/06/2005 a 30/06/2005
- 01/05/2005 a 31/05/2005
- 01/04/2005 a 30/04/2005
- 01/03/2005 a 31/03/2005




- Liliane Prata
- Taxitramas
- Camila Bianchi - Divagando
- Olivia de Perto (com sua bela voz)
- Daniele em Londres - vida nova (e mais que interessante) no Velho Mundo







Tem Sampa para todos

 

 

Há várias São Paulo dentro de São Paulo. Minha cidade é ao mesmo tempo uma só e várias. E não falo somente da idéia de que bairros são diferentes entre si, cada um concentrando certas características como vocação comercial, clima, condição social ou etnias. Embora isso também proceda, a cidade pode ser uma só e várias até no mesmo espaço geográfico delimitado, seja bairro, rua ou até o mesmo condomínio.

Há a São Paulo dos paulistanos de nascimento. Sejam de família quatrocentona ou descendentes das dezenas de nacionalidades que compõem a metrópole – 75, segundo as últimas pesquisas – muitos dos que aqui nasceram, permanecem por conveniência, laços familiares ou porque a vida calhou de acontecer por aqui. É claro que muitos paulistanos natos amam sua cidade, defendem-na, gostam dela. Mas eu já ouvi muito, de vários e vários deles, um “não gosto de São Paulo, mas já que moro aqui...”

Depois vem a São Paulo de quem veio em busca de trabalho, pura e simplesmente. O fato de ele estar nesta cidade é mera coincidência. Na verdade, esses heróicos nordestinos, nortistas ou mesmo estrangeiros visam o trabalho como fim, o sustento, e iriam para onde quer que ele estivesse. A metrópole sede de grandes indústrias recebeu em seu seio milhões de nascidos em outras paragens para alimentar a tão necessária mão-de-obra. Ainda hoje, pelas rodoviárias e aeroportos chegam pessoas em busca de uma vida melhor, tal como chegavam antigamente pelos portos do litoral lá embaixo. Hoje, a despeito do objetivo primário, ajudaram a formar a cidade tal como é, um caldeirão de diversidade étnica, social e comportamental.

Falando em trabalho, há a população flutuante. Gente que entra no perímetro paulistano todos os dias para trabalhar, voltando à noite para as cidades vizinhas, a Grande São Paulo e tantos municípios, as cidades dormitório. Aos poucos, o contrafluxo também acontece. De qualquer modo, acabam vivendo São Paulo durante o dia, pois o trabalho não quer saber quem mora onde. Almoçam, estudam e passeiam como paulistanos temporários.

E há aqueles também não nasceram aqui, mas escolheram a cidade. Ou desejavam a “Sampa” à distância até chegarem a ela, ou caíram de pára-quedas por alguma transferência pela empresa em que trabalhavam. Ou mesmo vieram só para estudar e acabaram ficando. É gente que, cedo ou tarde, um dia acorda e se sente pertencente a esse chão. O “paulistano de coração” está em casa, seja ele do Ceará, da Europa, da Ásia ou até do vizinho Rio de Janeiro – mesmo com aquela birrinha entre as duas cidades que é divertida quando vem de gente boa.

Estes últimos, dentre os quais me incluo (nascido na maresia da Guanabara, mas conquistado pela garoa), vivem Sampa de um jeito diferente dos demais. Perscrutam seus milhões de cantos, descobrem e redescobrem a urbe com aquela curiosidade natural e mais intensa de quem vem de fora. Há uma busca constante, até eles se entenderem no meio disso tudo. Constante,  pois por mais que já tenham descoberto, sempre há algo novo a descobrir.

Já vivi tempo suficiente aqui para me incomodar quando alguém fala mal de minha cidade. Afinal de contas, é aqui que trabalho, estudo, descanso, pago imposto, voto... Vivo. São quase quinze anos no lugar ao qual mais me senti ligado até hoje. Aqui realizei alguns dos maiores sonhos, me descobri entre todos estes estranhos, me achei diante de tanta gente, 19 milhões de vizinhos de todas a línguas. Nunca me esqueci de minha origem e nunca me esquecerei. Amo meu Rio, mas não posso negar que já sou mais paulistano que carioca. E não me incomodo nada com isso.

Em minha cidade, posso comer comida kosher sem ter nascido judeu – sempre maravilhosa. Posso usar os hashis à mesa ou em plena rua sem ter os olhos puxados. Posso andar pela calçada bebendo devagarinho num copo de papel da Starbucks com meu nome escrito nele sem ser norte-americano. Posso ouvir três línguas diferentes em uma simples caminhada pelo bairro. Posso comprar livros baratinhos, porém bons, em uma máquina na estação do metrô. Posso descobrir ingredientes nunca antes imaginados por mim no Mercadão Municipal. Descubro o que há por trás do escondidinho, e o cheiro da paçoca com suas cebolas douradas e carne de sol. Doce de jiló e suco de rosas na mesma praça, vejam só! Botequim carioca em plena Faria Lima, com bolinho de bacalhau e tudo. Cachorro quente “histórico" de pé à beira do balcão no Largo do Café. Posso me sentir no início do século XX com uma xícara de café cheiroso em uma mesa de mármore branco, ferro e madeira em São Bento, imaginando os bondes lá fora. Posso me sentir num mercado de pulgas europeu em vários bairros, pra que quer antiguidades de verdade ou mesmo simples tranqueiras como bijuteriazinhas ou brinquedos de colecionador. Posso ser cumprimentado por um salam aleikol...

Aqui posso ver uma roda de capoeira no meio do parque em que, a poucos metros, outro grupo segue os movimentos suaves do tai chi chuan. Mais na frente, o cheiro de mate verde denuncia um chimarrão quentinho. Posso até não dançar uma tarantella na cantina, mas não resisto e bato palmas com gente de todas as mesas sob as garrafas de vinho, fitas e camisetas de futebol suspensas do teto. Faço compras às duas da manhã e posso “almoçar” a qualquer momento do dia ou da noite. Coisas de Sampa. Feijoada Às quartas e sábados, peixe na sexta e, segunda-feira, virado à paulista, que tanto lembra Minas Gerais! É muito bom essa gente toda ter trazido um pouco de seus países, estados e cidades pra cá e compartilhar conosco, como se nos recebessem lá em suas terras de origem. E passamos a ter alguns desses hábitos a ponto de eles fazerem falta quando ficamos muito tempo sem eles.

Ainda não falo “ô meu”, nem me vejo falando – mas a um “ôrra” eu até solto vez em quando. Mas é muito gostosa uma sensação que eu tenho tido ultimamente. Na hora em que o avião vai descendo e vou vendo aquele mar de arranha-céus chegando mais e mais perto, é inevitável... Vem aquele sorriso no rosto e a gostosa sensação. “Cheguei, tou em casa”.

Por melhor que a viagem tenha sido.



-Saboreado por: mc às 09h38
[ ] envie este sabor